terça-feira, 14 de abril de 2009

Meu amigo ausente, do meio ambiente

Sérgio Abranches

A primeira vez que me envolvi com meio ambiente foi na Rio 92. Por causa do meu amigo Márcio, parceiro em um escritório de consultoria, que dava mais prazer de convivência que dinheiro. Ele sempre dizia “o dinheiro acaba aparecendo”. Aparecia, nunca abundante, mas salvando no último minuto. Márcio Moreira Alves era um “buscador de causas” e logo percebeu que a causa ambiental estava entrando para sempre na agenda política. Fomos conversar com outro amigo e “causeiro”, o Betinho, já envolvido na questão ambiental, no Ibase, e que oferecia os primeiros acessos à Internet. Quem disse que visionários não têm o pé na terra e a mão na tecnologia? Os dois tinham, Betinho bem mais que Márcio.

Ele nos disse que se estávamos entrando no tema só para aproveitar a onda, estávamos errados, se era porque acreditávamos na causa, daria trabalho e nunca mais ela nos largaria. Entramos, por convencimento, porém, por razões diversas, de diferentes demandas de nossas vidas, acabamos não formando a ONG que planejáramos. A questão ficou em nossas agendas. Márcio escreveria sobre ela em várias colunas, na época em que estava ensaiando o colunismo, sem ter ainda conseguido um contrato para retornar ao jornalismo profissionalmente. Ele estava obstinado a fazê-lo e durante longo tempo publicou gratuitamente seus artigos, fazendo uma única demanda: que saíssem sempre no mesmo dia e no mesmo local, para ajudar a criar nos leitores o hábito de lê-lo. Como se precisasse. Finalmente, foi contratado para escrever para O Globo e produziu seus “sábados azuis”, nos quais o meio ambiente foi personagem muitas vezes.

Essas colunas são exemplo de bom ofício e da possibilidade de um jornalismo que olhe para todo o Brasil.A primeira vez que vi o Márcio eu era secundarista, em Brasília, e ele deputado, antes da cassação e do exílio. Marchava, junto a outros poucos parlamentares jovens de oposição, à frente de uma passeata de estudantes, que acabou em pancadaria. Os estudantes mais politizados o conheciam e o apontavam para os outros. Era um ícone, já, antes de se tornar, como ele diz em seu discurso, um símbolo transcendente à pessoa, da liberdade de expressão e da liberdade.

Naquele dia, ele saiu ensopado pelos jatos de água da repressão e mais herói ainda aos olhos dos estudantes.

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Fonte: O ECO